O profissional de software geralmente entra muito cedo na área. Como embasar este início para construir uma carreira promissora?
Sulamita Garcia: Primeiramente é preciso acabar com o deslumbramento e encarar as coisas como são. Ser um programador em uma empresa, por exemplo, não significa só entrar e programar, mas também se adequar às normas da companhia. Se você fica deprimido só em pensar na idéia de ter de usar terno e gravata todos os dias, é bom refletir, pois muitas organizações da TI exigem isso.
Outra coisa é saber trabalhar na atual Gestão por Resultados, um dos modelos mais adotados pelas empresas. Ou seja: não adianta só produzir, trabalhar, fazer – o seu trabalho tem que render frutos, ou então está fora.
Também é preciso ver as opções da carreira, o que é um aspecto animador: antigamente, um profissional da programação ou virava programador pela vida inteira, ou se tornava, com muito custo, chefe de programação. Hoje, um profissional desta área tem mais possibilidades, como atuar na gerência de projetos, como um mentor técnico em algum cargo ou até mesmo evoluir para o posto de CIO.
E como chegar lá?
Sulamita Garcia: Estude! E não estou falando só de formação. A graduação é fundamental, mas não é suficiente. Leia muito, muitos livros técnicos, não fique o dia todo no ICR falando bobagem com a desculpa de que está trocando conhecimentos! Invista também em pós-graduação, e isso pode ser feito no exterior, garantindo um upgrade no currículo. Para isso, ofertas de bolsas de estudo não faltam, basta ficar atento e se preparar para as oportunidades. Agora, MBA, só se o seu interesse não for crescer na área técnica, mas sim na gerencial.
Também se prepare via freelancers, se estiver sem um emprego fixo. Você pode até mesmo optar por desenvolver sua profissão nesta linha. Existem muitos sites na web voltados a este nicho: as empresas/pessoas enviam trabalhos, o programador recebe, desenvolve, se relaciona com o cliente e entrega tudo sem precisar de contato presencial. Tudo muito prático e construtivo!
E quanto às certificações?
Sulamita Garcia: São muito boas de se ter, mas cuidado: cursos para certificações não se baseiam no mercado, mas na prova para os títulos, e a prova, além de ser somente sobre o curso, é muitas vezes comprável pela web, todo mundo sabe disso. Fique atento, portanto.
Outros problemas: os departamentos de Recursos Humanos das empresas de TI não são a TI, e portanto nem sempre entendem ou reconhecem as rotinas técnicas como esperam os profissionais desta área. Para os RHs, certificações valem menos do que um diploma, é bom saber.
Além do mais, foi-se o tempo em que as empresas bancavam com gosto os cursos e certificações de seus profissionais. É claro que isso ainda existe, e são vários os casos, mas muitas companhias reduziram custos e passaram a bancar não mais o curso, mas sim a prova, somente, e mais ainda: apenas se você passar.
Então os departamentos pessoais não possuem ainda o entendimento e entrosamento necessário para ajudar no crescimento do pessoal da programação?
Sulamita Garcia: Não necessariamente. Há pontos a serem resolvidos, como os que acabei de comentar, mas também há mudanças para o bem. Hoje em dia, por exemplo, você já pode faltar ao trabalho por um dia inteiro porque foi a uma conferência. Antes, isso era extremamente estranho, era preciso dizer que foi ao médico ou coisa assim. Ou seja: você podia faltar por causa de uma gripe, mas não para se instruir. Isso mudou.
O tempo livre dos profissionais da programação nas empresas, quando ocorre, também já é visto de forma diferente, quando bem utilizado. Por exemplo: se você utilizar este tempo para enviar colaborações pela web, por meio de comunidades de software livre, por exemplo, estará divulgando seu trabalho e o da empresa. Além disso, estará contribuindo diretamente para a expansão do próprio setor de software, o que poderá reverter em benéfico para a própria companhia onde está trabalhando, já que as colaborações geram sistemas melhores, aplicações facilitadas, etc.
Outra coisa: colaborar pelas comunidades é dar visão ao seu trabalho não só para o exterior, mas também para o interior da empresa. Se hoje você está em um cargo baixo, mostrar seu trabalho pode ser uma forma de chamar a atenção para seus esforços, rendendo, quem sabe, uma promoção.
Que outros artifícios podem ser usados para “chamar a atenção” da empresa?
Sulamita Garcia:Tem um ótimo, mas odiado: o relatório! Todo programador odeia ter que fazer relatórios, mas eles podem ser usados a seu favor. Veja bem: se a cada dois, três dias você fizer um relatório de tudo o que fez, seus trabalhos, procedimentos utilizados, ações concluídas, e enviar ao seu superior, estará demonstrando claramente seu serviço. Um serviço que poderia não ser visto, passar despercebido, pense nisso!
E agora... Como é essa história de ter de mandar o pessoal do software pro banho?
Sulamita Garcia: Ah... A higiene é um problema sério em muitas empresas. Você pode não acreditar, mas o profissional de software, muitas vezes – não em todas, sejamos bem claros! (risos) – entra tanto em seu trabalho que se esquece de cuidar de si. Assim, usa a mesma camiseta do Google até que esteja completamente esburacada, desbotada, velha. E tem pior: tem conferências empresariais onde, por incrível que pareça, a gente tem de dizer “olha pessoal, tem que tomar banho todos os dias, escovar os dentes, se vestir direito. Cabelinho ensebado, camisetão e bermuda não dá!”.